Éramos três: eu, Pedro e Eduardo.
Vivíamos sem camisa pela rua. Um dia, suados, no fim da tarde, banhamos pelados
no rio. O Eduardo admirava o meu corpo nu. Eu admirava o corpo nu do Pedro.
Pedro só falava da sobrinha da mais nova viúva da cidade, a Dona Dicinha. A
menina, até que era bonita. Tinha cabelos longos e negros e íris cor de
azeitona. Azeitona também era a cor dos olhos do Pedro. Depois do banho de rio,
fomos para casa de Dona Dicinha.
De tudo que nos foi oferecido por
ela, azeitona era o que mais gostávamos de comer. Havia uma boa quantidade de
azeitonas na cumbuca. Da divisão que fizemos igualmente entre nós três, sobrou
uma azeitona. E, o Pedro a ofereceu para a sobrinha de Dona Dicinha. Ela mordeu
a metade, sorriu, e descaradamente, devolveu para o Pedro. O Pedro, quase constrangido,
retribuiu um sorriso nervoso, e comeu a outra metade. Eu me mordi. De ciúmes do
Pedro, eu me mordi. O Eduardo se mordeu. De ciúmes de mim com ciúmes do Pedro,
o Eduardo se mordeu. E o Pedro lá, trocando sorrisos descarados, enquanto
tentava disfarçar que guardava no bolso, o caroço da azeitona mordido por ele,
e pela sobrinha de Dona Dicinha.
Queria que fosse o Pedro igual a
mim, não o Eduardo. Queria que fosse o Pedro a gostar de mim, não o Eduardo. Eu
só teria coragem de assumir o meu amor e enfrentar todo mundo, se fosse pelo Pedro,
não pelo Eduardo. De repente, Dona Dicinha gritou: Pedro, Eduardo e Antônio,
venham comer mais azeitonas. E nós três entramos.

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