quinta-feira, 16 de maio de 2013

A azeitona que não comi




Éramos três: eu, Pedro e Eduardo. Vivíamos sem camisa pela rua. Um dia, suados, no fim da tarde, banhamos pelados no rio. O Eduardo admirava o meu corpo nu. Eu admirava o corpo nu do Pedro. Pedro só falava da sobrinha da mais nova viúva da cidade, a Dona Dicinha. A menina, até que era bonita. Tinha cabelos longos e negros e íris cor de azeitona. Azeitona também era a cor dos olhos do Pedro. Depois do banho de rio, fomos para casa de Dona Dicinha.

De tudo que nos foi oferecido por ela, azeitona era o que mais gostávamos de comer. Havia uma boa quantidade de azeitonas na cumbuca. Da divisão que fizemos igualmente entre nós três, sobrou uma azeitona. E, o Pedro a ofereceu para a sobrinha de Dona Dicinha. Ela mordeu a metade, sorriu, e descaradamente, devolveu para o Pedro. O Pedro, quase constrangido, retribuiu um sorriso nervoso, e comeu a outra metade. Eu me mordi. De ciúmes do Pedro, eu me mordi. O Eduardo se mordeu. De ciúmes de mim com ciúmes do Pedro, o Eduardo se mordeu. E o Pedro lá, trocando sorrisos descarados, enquanto tentava disfarçar que guardava no bolso, o caroço da azeitona mordido por ele, e pela sobrinha de Dona Dicinha.

Queria que fosse o Pedro igual a mim, não o Eduardo. Queria que fosse o Pedro a gostar de mim, não o Eduardo. Eu só teria coragem de assumir o meu amor e enfrentar todo mundo, se fosse pelo Pedro, não pelo Eduardo. De repente, Dona Dicinha gritou: Pedro, Eduardo e Antônio, venham comer mais azeitonas. E nós três entramos.

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